A educomunicação a favor da saúde e contra as fake news

As fake news, ou notícias falsas, interferem negativamente na política, na saúde e em toda a sociedade. Por isso, elas não devem ser apenas denunciadas e prevenidas. A educomunicação surge então como uma forma teórico-prática para guiar uma espécie de “imunização” popular contra a desinformação.

Por Larissa Helena Carneiro

Descrédito na ciência, disseminação de tratamentos inadequados e negacionismo: os principais resultados de uma onda de desinformação, intensificada na pandemia de Covid-19.

Homem lê em um tablet em uma mesa com xícara de café. No tablet uma capa de jornal escrito "fake news" no espaço reservado para a manchete.
Fake News / Pexels

Embora as fake news (notícias falsas, em português) tenham começado a ser amplamente discutidas ao interferirem em decisões democráticas importantes, como a saída do Reino Unido da União Europeia, as eleições presidenciais estadunidenses de 2016 e as brasileiras, de 2018, elas frequentemente tematizam questões médicas, chegando a ameaçar a saúde pública.

Pessoa segura smartphone aberto em uma tela com ícones de redes sociais.
Fake news circulam facilmente nas redes sociais / pexels-tracy-le-blanc-607812

Desde o ano passado, muitas inverdades sobre o coronavírus têm sido divulgadas na internet. Uma pesquisa da organização Avaaz, publicada  em maio de 2020¹, revelou que 9 em cada 10 brasileiros entrevistados viram um ou mais conteúdos enganosos sobre a doença. De acordo com o artigo Fato ou Fake? Uma análise da desinformação frente à pandemia da Covid-19 no Brasil²:

(…) é possível afirmar que a disseminação de notícias falsas contribui para o descrédito da ciência e das instituições globais de saúde pública, bem como enfraquece a adesão da população aos cuidados necessários de prevenção, ao lidar com a epidemia.

Além disso, muitas dessas notícias promovem ideologias negacionistas ou métodos de cura e prevenção não comprovados cientificamente, inverificáveis ou até prejudiciais.

Pessoa segura smartphone em tela de abertura do aplicativo whatsapp.
O Whatsapp é uma das principais redes de circulação de notícias falsas / pexels-anton-46924

O mesmo artigo recomenda que, para acabar com as notícias falsas, as instituições disponibilizem mais informações confiáveis e que a população confira a veracidade do que recebe, reforçando que “A melhor abordagem regulatória possivelmente seja atuar diretamente no debate público, aumentando a consciência social”.

Visando, então, a dispersão do pensamento crítico, podemos recorrer à educomunicação, campo interdisciplinar entre educação e comunicação.

Em A educomunicação na batalha contra as fake news, Maria C. C. Costa e Anderson Vinicius Romanini afirmam que tal área de conhecimento “(…) prevê uma intervenção social cujo objetivo é libertar aqueles que estão presos na caverna de Platão.” –, fazendo alusão a uma metáfora que relaciona o processo de esclarecimento à saída de uma caverna fictícia, em que um grupo estaria aprisionado desde o nascimento e basearia sua noção de realidade em sombras projetadas do lado de fora  –  e busca tanto instruir a população sobre os meios de comunicação já existentes quanto favorecer a criação e o uso de novos canais, possibilitando espaço para novas vozes.

Ao mesmo tempo em que colocam a educomunicação como um possível recurso contra mensagens enganosas, os autores ressaltam que ela preza pela liberdade, pois reconhecem que a batalha pela posse das mídias e pela hegemonia ideológica induz à repressão. Impedir e combater a desinformação não é uma forma de censura, pelo contrário: é garantir que todos pensem e tomem decisões guiadas por fatos e não por interesses alheios. Proteger a verdade é também proteger a democracia.

Por interferirem negativamente na política, na saúde e nos demais setores da sociedade, as fake news não devem ser apenas denunciadas e desmentidas, mas também prevenidas.

Quer saber mais? Confira essas Referências:

¹Pesquisa da Avaaz: https://secure.avaaz.org/campaign/po/brasil_infodemia_coronavirus/

²GALHARDI, Cláudia Pereira; FREIRE, Neyson Pinheiro; MINAYO, Maria Cecília de Souza  and  FAGUNDES, Maria Clara Marques. Fato ou Fake? Uma análise da desinformação frente à pandemia da Covid-19 no Brasil. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2020, vol.25, suppl.2, pp.4201-4210.  Epub Sep 30, 2020. ISSN 1678-4561. http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320202510.2.28922020.

COSTA, Maria Cristina Castilho; ROMANINI, Vinicius. A educomunicação na batalha contra as fake news. Comunicação & Educação, São Paulo, v. 24, n. 2, p. 66-77, 2019. Disponível em < https://doi.org/10.11606/issn.2316-9125.v24i2p66-77 > DOI: 10.11606/issn.2316-9125.v24i2p66-77. 

“Educomunicação” – episódio 4 da Websérie “Consulta Brasil”. Viração Educom, 2021. Disponível no Youtube.

Fake News” – episódio 3 da websérie “Consulta Brasil”. Viração Educom, 2021. Disponível no Youtube.

“Guia Tá na Rede: o que vira é navegar com segurança”, volumes I e II. Viração Educom, 2021. Disponível no site da organização.

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1 Comentário

  • Muito legal o texto. Parabéns pelas informações e esclarecimentos tão importantes nesse período de pandemia.

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