Imagem de: El País

A deplorável agenda climática de Jair Bolsonaro

Por Sam Goodman, traduzido por Juliane Cruz
Imagem de: El País
O recente ataque ao candidato e deputado de extrema-direita, Jair Bolsonaro, mergulhou a próxima eleição presidencial do Brasil em um caos e realçou as perspectivas de um perigoso candidato, que já fez declarações deploráveis e promove uma agenda anti-ambiental, chegar ao mais alto cargo político do país.
Bolsonaro, um populista da extrema-direita, apresenta uma importante ameaça ao compromisso climático da nação, prometendo seguir o exemplo do presidente Donald Trump, retirando o Brasil do Acordo de Paris.
Descrito por Gleen Grenwald e Andrew Fishman, do The Intercept, como o “maior misógino e odioso político eleito no mundo democrático”, Bolsonaro foi esfaqueado em um comício no dia sete (7) de setembro. Embora tenha perdido 40% de seu sangue, Bolsonaro passou algumas semanas em recuperação e permanece na corrida eleitoral.
Na primeira pesquisa após o ataque, Bolsonaro subiu em popularidade para o alto de 30%, com nenhum outro candidato chegando a mais que 12%. O levantamento divulgado neste último domingo (30), uma semana antes do dia das eleições, realizado pelo instituto MDA em encomenda da Confederação Nacional do Transporte (CNT), mostra Bolsonaro com 28,2% das intenções de voto e Haddad, o segundo colocado, com 25,2% da preferência dos entrevistados.
A vitória de Bolsonaro representaria um golpe devastador para a democracia brasileira. O candidato, que atualmente está capitalizando em uma onda global de populismo da extrema-direita, tem o histórico de fazer declarações depreciativas sobre grupos marginalizados. Ele demonstrou desprezo pelas normas democráticas, vangloriando-se em um comício de que gostaria de atirar em membros corruptos do popular Partido dos Trabalhadores (PT) e se referiu à ditadura militar que ocorreu no país entre 1964 e 1985 como um período “muito bom”.

Donald Trump e Jair Bolsonaro (Foto: Getty Images)

“Assim como Donald Trump, Bolsonaro é um racista”, diz Paulo Lima, jornalista brasileiro e diretor executivo da organização da sociedade civil Viração Educomunicação. “Ele é também um defensor da posse e porte de armas. É contra os direitos da população LGBTI e contra os movimentos por direitos das mulheres”.

O Efeito Lula
As perspectivas de Bolsonaro chegar à presidência aumentaram radicalmente depois do dia 31 de agosto, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do Brasil declarou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ou “Lula”, inelegível para um terceiro mandato. Lula está preso para cumprir uma sentença de 12 anos por corrupção e lavagem de dinheiro.
Antes de ser declarado inelegível, Lula estava à frente de Bolsonaro nas pesquisas eleitorais. De acordo com uma pesquisa do MDA/CNT em agosto, o ex-presidente estava com 21,8% das intenções de voto, enquanto Bolsonaro estava com 18,4%.
Embora o Partido dos Trabalhadores (PT) seja de centro-esquerda e difira consideravelmente do Partido Social Liberal (PSL), que pode ser considerado de extrema-direita, Bolsonaro pode atrair os eleitores de Lula.
“A imagem de ‘pessoa por fora’ e ‘dissidente’ que Bolsonaro tenta projetar em sua campanha também atraiu eleitores não-ideológicos que estariam com Lula se ele fosse o candidato”, diz Bruno Hisamoto, um candidato a doutorado em Relações Internacionais na Universidade de São Paulo, para o blog La Ruta del Clima. “Ou seja, eleitores que gostam mais do estilo de Lula do que da plataforma ideológica do PT e veem esse estilo em Bolsonaro. Desse modo, da direita, Bolsonaro reúne os votos que tradicionalmente seriam destinados a um moderado Partido Social-Democrata brasileiro e consegue captar alguns dos votos que seriam destinados a Lula em circunstâncias normais ”.

A ascensão de Bolsonaro
A mensagem de Bolsonaro ressoou em um eleitorado brasileiro farto de uma corrupção desenfreada. Desde que assumiu o poder, após o controverso impeachment da então presidente Dilma Rousseff, o atual presidente Michel Temer, do partido Movimento Democrático Brasileiro (MDB), tem sido cercado por acusações de corrupção e obstrução da justiça e seu índice de aprovação tem alcançado apenas um dígito por meses.
Para obter apoio político, Bolsonaro promete combater a corrupção e o crime, enquanto ataca grupos marginalizados no processo.
“Bolsonaro baseia-se fortemente no discurso de Donald Trump, a quem ele repetidamente presta tributo público desde sua eleição a presidente”, diz Toledo. “Como Trump, Bolsonaro quer projetar a imagem de uma pessoa de fora disposta a desafiar o establishment político e acabar com a política tradicional, apesar de ter sido deputado por quase 30 anos, com seus filhos ocupando cargos eletivos em todas as áreas do Legislativo”.
Capitão aposentado do exército brasileiro, Bolsonaro também apela para um nacionalismo militarista e acusa a esquerda de ser “globalista”, afirma Toledo. “Nesse ponto, ele também recorre à xenofobia, rejeitando a entrada de imigrantes no país, já que eles podem ‘roubar empregos’ dos trabalhadores brasileiros.”

Bolsonaro e o Acordo de Paris
Embora a mudança climática não tenha desempenhado um papel importante na campanha presidencial deste ano e as intenções de Bolsonaro de deixar o Acordo de Paris tenham sido apenas um pouco mais do que uma nota de rodapé em seu programa de governo, a retirada teria sérios desdobramentos para o Brasil e a comunidade internacional. O Brasil, que abriga a maior floresta tropical do mundo e a nona maior economia, também é considerado o provável anfitrião das negociações climáticas de 2019.

Michel Temer assinando a ratificação do Acordo de Paris. (Foto: Beto Barata/PR)

Essa proposta de retirada foi recebida com duras críticas do chefe ambiental da ONU, Erik Durkheim, que declarou: “A rejeição do Acordo de Paris é uma rejeição da ciência e do fato. É também uma promessa falsa, porque os políticos que apresentam a ação climática como um custo para a sociedade entenderam tudo errado”
No entanto, como observa Toledo, seria difícil para Bolsonaro retirar o Brasil do Acordo de Paris porque o texto foi ratificado pelo Congresso e o Presidente não tem poder imediato para proclamar a retirada. “Além disso, muitos Estados brasileiros também têm compromissos climáticos que independem da ação do governo federal e praticamente todas as grandes empresas brasileiras em todos os setores econômicos são signatárias de declarações internacionais em favor de ações climáticas.”
“Meu medo é mais prático do que legal. Um hipotético governo de Bolsonaro poderia sabotar medidas importantes para facilitar o cumprimento das metas brasileiras de redução de emissões de gases de efeito estufa, especialmente em combate ao desmatamento e agricultura.. Diz Bruno Hisamoto.
A preocupação também foi expressa por Paulo Lima, que está receoso:
“Se o Brasil abandonar o Acordo de Paris, haverá enormes consequências para nós. Em primeiro lugar, o Brasil deixaria de ser um ator importante na arena internacional e nas negociações dentro da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) e da Conferência das Partes. E o país se tornaria uma grande ameaça planetária, porque a Amazônia correria o risco de desaparecer totalmente. Bolsonaro quer fortalecer ainda mais o agronegócio e o avanço da pecuária por lá. Isso significa mais desmatamento e aumento das emissões de dióxido de carbono e metano, os principais gases causadores do efeito estufa.”
Muito estará em jogo quando os eleitores da quarta maior democracia do mundo forem às urnas em outubro. Uma vitória de Bolsonaro seria um golpe devastador para as perspectivas sociais, democráticas e ambientais da nação.

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