A Deep web na palma da sua mão e os impactos dela na sociedade brasileira

Desinformação, notícias falsas, campanhas anticiência, disseminação de ódio e preconceitos. Pode parecer estranho, mas de acordo com alguns especialistas, o WhatsApp pode ser enquadrado dentro do que chamamos de Deep web. O que isso significa?

Por Luis Miguel da Costa

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Pode soar estranho quando ouvimos isso pela primeira vez, mas nós acessamos e utilizamos a Deep web várias vezes ao dia. Você deve estar se perguntando: “mas como assim?”. Pela definição atual do que seria a Deep web, o aplicativo WhatsApp pode ser inserido neste meio. 

Segundo Barbara Calderon, na obra “Deep e dark web”, a definição de Deep web seria tudo aquilo que não pode ser acessado através de buscadores como o Google.

Fonte: technainite

Dada essa definição, a princípio pode ser conflitante acreditar que o WhatsApp faz parte dessa camada da web, já que podemos acessar o aplicativo através de navegadores comuns e encontrar notícias sobre ele.

Contudo, além de nós não termos acesso ao que circula dentro do WhatsApp e nem podemos quantificar o que é circulado por lá, só você tem o endereço de hospedagem do seu WhatsApp dentro da internet e as pessoas que se comunicam com você devem ter uma chave de acesso para poder interagir com você; para completar, as mensagens criptografadas tornam quase impossível chegar até a origem de uma mensagem que circulou por milhares de pessoas.

O WhatsApp pode ser enquadrado dentro do que chamamos de Deep web. 

E qual a consequência disso?

No Brasil, hoje existem cerca de 120 chips cadastrados para cada 100 habitantes, segundo dados do “Our Word in data”. Além disso, o consumo de internet no Brasil em mais de 60% da população é feito apenas através de franquias de internet de operadora – ou seja, o acesso é limitado.

As operadoras de telefonia e internet no Brasil geralmente vendem pacotes que não consomem a franquia de dados móveis quando você se comunica pelo WhatsApp; contudo, qualquer acesso a uma página hospedada na internet comum irá consumir essa franquia, mesmo se o link vier de uma mensagem via WhatsApp. 

Isso implica que a maior parte da população não terá meios de verificar as fontes daquela informação que chegou até ela por mensagem. Isso facilita a manipulação de informações, e como o WhatsApp é um serviço onde não é possível quantificar nem rastrear o conteúdo circulado, se torna impossível verificar qual informação está chegando aos olhos da maioria dos brasileiros e se aquilo é verdadeiro.

Em outras palavras, a informação cai no limbo e se perde o controle de como ela chega às pessoas. 

As consequências disso são várias, e em diferentes âmbitos, como na política e na divulgação científica.

As eleições brasileiras de 2018 são um ótimo exemplo de como essa rede pode ser utilizada para manipular a opinião pública. As notícias falsas sobre a covid-19, deixam explícito o impacto que isso pode ter na saúde pública.

Fonte: technainite

E especificamente para nós, criadores de conteúdo científico / informação, fica o questionamento: sabendo que mais da metade da população do nosso país não consegue acessar nosso conteúdo, pois a franquia de dados não permite, e sabendo que não teremos o controle do que publicamos quando tentamos comunicar via WhatsApp, como iremos romper nossa bolha e fazer com que nosso conteúdo seja realmente consumido popularmente?

Infelizmente não temos uma resposta para a pergunta sobre como tornar o conteúdo realmente acessível, mas se não refletirmos sobre, nunca encontraremos a solução.

Recomendo a todos que assistam as videoaulas da disciplina ministrada pelo Atila Iamarino em 2019 na Unicamp, na qual ele aprofunda esses assuntos.

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