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A crise climática e os ‘agoras’: a crise do clima é a crise da água

Estamos na década internacional de ação pela água, mas falta muita coragem para caminhar minimamente em direção à universalização do direito universal de acesso à água e ao saneamento.

Por Igor Vieira

O problema não é a “natureza humana” que consome e desperdiça. Nossa cultura evidenciada e financiada historicamente por indústrias dos combustíveis fósseis está buscando sempre um depois, “qual a próxima área para desmatar”, “qual a próxima tecnologia imperdível”, “quem será que garantirá o próximo bilhão”. Em contrapartida, somos deixados com o agora e ele se desdobra em muitos outros.

Os ‘agoras’ são fundamentais para que a gente trate a questão da água na seriedade com que ela precisa ser tratada quando o assunto é a crise do clima.

A questão não é só que estamos indo muito rápido. A crise climática pode ser vista em situações locais e cotidianas, muitas vezes endêmicas: uma espécie de planta que floresceu antes de sua época, o regime de chuvas em uma região que atrasou dois meses – e para observar isso é necessário ter uma relação íntima com a área e isso passa despercebido quando lidamos com uma coisa como a água, que é fundamental para nossa existência e que precisamos ter todo dia a todo custo em nossas vidas diárias e só sentimos o impacto em períodos de escassez publicizada.

Brasil perdeu 37% da água tratada para consumo só em 2013 / Foto: Tânia Rêgo | Agência Brasil

Protegidos por nossas rotinas em nossas casas, locais de trabalho, carros, ônibus e  vivendo nossas vidas, não vemos a vida passar como ela de fato é nos ambientais naturais e nas rotinas dos serviços básicos que dependem do seu equilíbrio para manter essa falsa proteção: não notamos as secas que diminuem a disponibilidade de água que chega na estação de tratamento para garantir a potabilidade do elemento essencial que consumimos, por exemplo.

Fomos treinados pelo sistema para ignorar, e, dentro do universo ambientalista que lida com a crise climática, como as COP’s, por exemplo, somos sempre tirados do foco da água. A razão? O valor econômico.

Em todos os espaços de tomada de decisão, discussão e debate sobre as mudanças do clima, fala-se de florestas, de uso do solo, de segurança alimentar, de perdas e danos e de eventos climáticos extremos e, a todo momento, parece que se opta por ignorar que a água é um fator transversal a todos eles.

Parecem ignorar que as florestas geram água e que a água muda a dinâmica dos solos, assegura um caminho essencial para a segurança alimentar, tem relação direta com financiamento e que todo evento climático extremo parece ter relação com ela: enchentes, secas, furacões, tsunamis e incontáveis outros.

Por que será que as conferências de clima não desenvolvem tanto a questão do acesso a água e saneamento como o faz em relação às florestas, enquanto as discussões “diplomáticas” de água acontecem num fórum financiado por grandes corporações cujas inscrições são caríssimas?

Bem, se você tem o mínimo de bom senso, percebeu que a resposta para a minha pergunta está nela mesma.

Ainda se tem medo de falar sobre água e saneamento porque isso envolve muito dinheiro e muitas corporações, mesmo que ela seja um direito humano fundamental. O valor agregado a esse recurso natural é gigantesco e faz com que as discussões sejam tímidas e insuficientes em espaços de tomada de decisão.

Brasil tem dificuldades de acesso e distribuição de água – reprodução Instituto Trata Brasil

Criou-se um Objetivo do Desenvolvimento Sustentável só pra água e saneamento e espera-se que sejam asseguradas a disponibilidade e a gestão sustentável da água e saneamento para todas e todos até 2030, enquanto 2 bilhões de pessoas no mundo ainda não têm acesso à água potável e outros 4 bilhões não possuem saneamento segundo o Relatório Mundial de Água e Desenvolvimento.

O mesmo relatório enfatiza que três são os campos de ação em nível de cidadania: capacitar pessoas no processo de adaptação à crise climática, aumentar a resiliência dos meios de subsistência e, por fim, reduzir os agentes provocadores das mudanças do clima. Isso tudo para reduzir a insegurança hídrica e as mudanças do clima, que são, conjuntamente, as maiores crises que a humanidade já enfrentou e continuará desenvolvendo formas de lidar nos próximos anos.

Como alguém que tem o privilégio do acesso a espaços de tomada de decisão e compreensão dos acordos internacionais de clima, me preocupa que a questão dos recursos hídricos quase não apareça nesses espaços (tenta pesquisar “water” no Acordo de Paris).

A adesão ao acordo não quer dizer nada quando mantemos as ambições baixas e seguimos com ações tímidas para controlar a crise climática, que é hídrica. O caminho para a solução da crise climática precisa levar em consideração a sustentabilidade hídrica, e não estou falando da sustentabilidade do mercado verde que ama usar os ODS para explorar recursos naturais.

Falo da sustentabilidade em sua essência: que reconhece a questão, que busca alternativas baseadas na natureza para resolvê-la e, mais importante, usa exemplos de sucesso na gestão de recursos naturais para replicar onde for possível.

Comunidades no semiárido brasileiro têm feito isso, comunidades no sertão nordestino têm feito isso, comunidades quilombolas têm feito isso, povos indígenas e tradicionais têm feito isso.

Parece ser muito difícil colocá-los na linha de frente da solução dos seus próprios problemas, ou será que assim não é possível criar uma estratégia política que favorece grandes empresas e mantém as coisas como estão: com as pessoas em vulnerabilidade precisando de ajuda e “bons samaritanos” as ajudando para sempre.

Estamos na década internacional de ação pela água, mas falta muita coragem para caminhar minimamente em direção à universalização do acesso à água e ao saneamento.

Isso ficou ainda mais claro com a pandemia do COVID-19 e, no caso brasileiro, também com o novo marco do saneamento. Ambos escancararam a realidade das pessoas que estão sofrendo e sofrerão enquanto não se garantir o acesso a um direito humano fundamental como a água.

Fica muito claro quem são essas pessoas e mais claro ainda que quem toma as decisões não as consideram porque, na lógica da dinâmica das coisas, os mesmos indivíduos mais impactados pela crise climática são também os mais afetados pelo COVID e, no Brasil, estão mais suscetíveis às consequências negativas do novo marco regulatório do saneamento.

Mundialmente falando, uso da água dobrou no último século e esse consumo está aumentando a cada ano – não à toa, a cada ano quebramos recordes de temperatura global e, ainda, de emissões.

Ao mesmo tempo, o IPCC –  Painel Intergovernamental sobre as Mudanças do Clima – deixa claro que a crise climática junto à nova frequência intensa de eventos extremos como tempestades, enchentes e secas estão agravando a situação nas nações que já vivem sob stress hídrico, e que esse padrão de stress vai começar a ser visto em regiões que, até o momento, ainda não sofreram com essa questão.

A pergunta que fica é: com este cenário, quando os tomadores de decisão vão tratar a água e o saneamento com a responsabilidade devida?

Mais: quando as Nações Unidas vão ter a coragem de inserir discussões sobre água mais profundas nas conferências de clima e abordá-las em tratados internacionais com mais eficiência? Espero ver uma resposta para isso nos próximos anos.Para solucionar a crise climática, precisamos de uma mudança sistemática começando de agora, e, para isso, é importante compreender que, embora a água tenha um valor financeiro, ela não é e jamais será mercadoria. Direito não se vende. Água é Clima.

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