8M: Por que as mulheres tem mais medo do que os homens?

Mais um “dia internacional das mulheres”… e o que temos para hoje? Poucas mudanças, muitos atrasos e ainda muito medo espalhado.

Por Victoria Souza

Recentemente, após um curso sobre diversidade e gênero que realizei pela Engajamundo, comecei a refletir o porquê de as mulheres terem mais medo do que os homens. Culturalmente somos reconhecidas como medrosas; já ouviu aquela expressão: não aja como uma mulherzinha?!

Comecei a refletir no porquê de termos tanto medo, no fato de pensarmos meticulosamente nas roupas que usaremos fora de casa, nas estratégias caso alguém nos pare no meio da rua, escolher ruas movimentadas para passar ao invés de ruas vazias, tentar acompanhar o passo de outras pessoas para não ficar sozinha tarde da noite.

Será que os homens se preocupam tanto com isso como as mulheres se preocupam?

Com relação à roupa, por exemplo, será que os homens se preocupam com o fato de sair de casa sem camisa? Será que alguém pode assediá-los? Será que alguém irá forçá-los a entrar em um carro, porque estão sem camisa?

Muitas mulheres planejam o tipo de roupa que utilizarão conforme o lugar que estarão; será que posso mesmo ir de saia ou vestido para esse evento? Terá alguma escada? E se chover e minha roupa ficar transparente? E se eu subir no ônibus e alguém filmar debaixo do vestido? E se no metrô, alguém encostar em mim? Se você está lendo esse texto e é um homem, provavelmente não imaginou que essas perguntas (que parecem ridículas) passam por nossa cabeça o tempo todo. E sim, elas são ridículas.

Ridículas porque em pleno século 21, ano de 2021, ainda precisamos nos preocupar com esse tipo de detalhe, precisamos agradecer a Deus todos os dias por ter voltado para casa em segurança e sem que ninguém tenha encostado em nós. Aquele homem do início do texto aparentemente não se preocuparia muito com essas questões. 

No entanto, queria eu e a maioria do planeta Terra acreditar que apenas uma roupa pudesse evitar que as mulheres sofressem algum tipo de abuso. Recentemente a deputada Isa Penna sofreu importunação sexual em plena Alesp: o deputado Fernando Cury simplesmente apalpou seus seios durante uma audiência na câmara. 

A questão do abuso sexual, violência doméstica são apenas alguns dos problemas que as mulheres precisam se preocupar e ter medo. Existem ainda problemas como o machismo exarcebado do mundo corporativo, no qual você leva “cantadas” e precisa encarar essa atitude como um elogio e silenciar, principalmente se essa “brincadeira” vem do seu gestor.

Ou então, quando questionam sua capacidade de fazer determinado serviço por ser mulher. Além da necessidade de provar a todo tempo que pode fazer as mesmas atividades que os homens, as mulheres lutam ainda hoje, para receber os mesmos salários que os homens. 

Recentemente, fui imersa em diversos grupos de estudos, alguns específicos de mulheres e ouvi relatos difíceis que me moveram a escrever sobre a relação sociedade x mulheres, e cheguei a conclusões desgastantes.

Ainda existem por aí mulheres que não são promovidas ou conseguem empregos porque estão grávidas ou porque tem filhos. Mulheres ouvindo que com a maternidade, não terão a chance de atender a demanda que um cargo de liderança precisa. Ainda existem mulheres com mais de 40 anos tentando se recolocar no mercado de trabalho e sendo tratadas com desrespeito por empresas que pregam no Linkedin que são “Great place to Work”.

Ainda existem mulheres extremamente competentes que, apesar de se esforçarem e se dedicarem, continuam recebendo um salário menor em relação aos seus colegas de trabalho do sexo oposto. Ainda existem mulheres sofrendo agressões verbais de seus companheiros em lugares públicos e pessoas se calando como quem diz: Em briga de marido e mulher…

Bem, são enormes os problemas que ainda enfrentamos nas áreas pessoais e profissionais. Mas, com esse artigo, preciso me focar em um problema gravíssimo que depois de tanto tempo, tantas discussões continuam afetando demais as mulheres em todas as classes sociais. Te digo todas as classes sociais porque vemos casos todos os dias de feminicídios que ocorrem com mulheres de baixa renda até mulheres com altos cargos e salários. Tanto é verdade que ocorrem em todas as classes sociais, que vemos desde operários a juízes desdenhando da Lei Maria da Penha.

Os tímidos avanços no enfrentamento à violência doméstica

violência doméstica e familiar contra a mulher é “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial

Artigo 5º da Lei Maria da Penha

Sancionada em 2006, a Lei Maria da Penha (criada para tornar a violência contra a mulher um crime de maior potencial ofensivo) ainda patina tentando ganhar um pouco de reconhecimento e importância dentro de uma sociedade machista, que continua tratando as mulheres como propriedade.

Apesar do avanço que tivemos com a criação dessa lei, as mulheres continuam sentindo medo, se sentindo desprotegidas e menosprezadas dentro de empresas e dentro de suas próprias casas. Os pontos que precisamos pensar:

Deveríamos alterar as leis? Deveríamos treinar as mulheres? Deveríamos reeducar os meninos? 

Durante a pandemia, os casos de feminicídio cresceram 22,2% em 12 estados de acordo com o fórum brasileiro de segurança pública. Apenas no Acre, o aumento foi de 300%. (dados da Agência Brasil).

O aumento das agressões contra as mulheres cresce em um momento o qual a convivência aumenta entre os familiares. Muitas mulheres ficam vulneráveis a parceiros ou familiares violentos e com as restrições impostas pela pandemia, aumenta sensivelmente a dificuldade de denunciar o parceiro ou voltamos na questão do medo em tomar alguma atitude para evitar que ocorram novos casos.

Medo na pandemia / Istockphoto

Na minha opinião os dados sobre violência doméstica ainda não são confiáveis o bastante, uma vez que diversos casos não são denunciados para a polícia. E muitas pessoas se questionam “por que não são denunciados esses casos?”

Essas mesmas pessoas, acreditam que não são denunciados porque as mulheres “gostam de apanhar” ou porque provavelmente fizeram algo de errado para apanhar. Mas, eu questiono:

quem gosta de apanhar?

Novamente caímos na questão do medo. Medo de “não dar em nada” (o que ocorre muitas vezes), medo de o agressor voltar e matar a vítima (relatos diários desse tipo de situação), medo da situação vexatória (a mulher é colocada como culpada pela situação).

Diversas vezes, os medos guiam as mulheres em suas decisões e diversas vezes, a sociedade as obriga a tomar decisões erradas, como continuar com os agressores, continuar ouvindo “cantadas” porque não pode perder o emprego, não conseguir emprego ou uma promoção por estar grávida.

O Instituto Maria da Penha ressalta a importância não somente das mulheres observarem o ciclo de violência, dividido em 3 fases – ato de tensão, ato de violência, arrependimento e comportamento carinhoso – que se resume nas atitudes do agressor antes, durante e depois da agressão, mas também que as mulheres quebrem esse ciclo.

O fim da violência doméstica obviamente não depende apenas que a mulher quebre esse ciclo ou que alguém faça uma denúncia. O fim da violência doméstica é sempre colocado como responsabilidade individual e isolada da mulher. No entanto, sabemos que esse é um trabalho coletivo, um acordo entre poder público para criar políticas públicas mais eficazes, é a necessidade de endurecer as penas para os agressores, está relacionado a educar melhor as crianças, principalmente os homens, é ter empatia e enxergar a sociedade como o nosso reflexo coletivo.

Além disso, utilizar os dados a nosso favor e gerar estatísticas que se comuniquem com as ações, projetos, campanhas que precisam ser criadas para evitar mais e mais casos de feminicídio. 

Minha mensagem final para as mulheres que passam por isso é:

Procure redes de apoio, denuncie, não se cale, não se humilhe e observe o quanto você é uma potência e merece muito mais da sua vida.

Você pode ser e fazer o que quiser. Para as mulheres que já passaram por isso, use sua experiência para ajudar outras mulheres que estão nesse momento passando por essa situação. Você dará a volta por cima, acredite!

Para os educadores de crianças:

ensinem as mulheres não a se defenderem (como eu fui ensinada), mas sim a se valorizarem mais e digam que elas podem ser e fazer o que quiserem.

Para os meninos, ensinem que:

“ser homem” significa respeitar as mulheres. As crianças não devem ser direcionadas a terem atitudes machistas, sexistas, fazer serviços de homens ou de mulheres. 

Para os homens, talvez os meus argumentos os tenham convencidos do porquê de sentirmos mais medo do que vocês. Afinal, estamos sempre sendo culpadas por alguma coisa (e isso ocorre desde “Adão e Eva”), as leis ainda não funcionam como deveriam, a sociedade ainda não aje como deveria e a mulher continua sendo subvalorizada apesar de estarmos comemorando o dia Internacional da Mulher desde 1975.

No entanto, não fique apenas neste texto, pesquise mais pela internet, leia, se informe, converse com as mulheres e por fim, aja!

Não fique calado, questione suas atitudes, tenha empatia, não contribua para uma sociedade machista, ajude uma mulher quando ver que ela precisa de ajuda e não esqueça que a sua vida, só foi possível graças a uma mulher. Respeite!

Canais de Denúncia:

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