30 de janeiro: Dia de homenagear os quadrinhos brasileiros

No dia 30 de janeiro, comemoramos o Dia do Quadrinho Nacional. Mas qual a importância das histórias em quadrinhos (HQs) no Brasil e por que foi escolhida essa data?

Em primeiro lugar, os quadrinhos são uma linguagem com grande poder de comunicação e vão muito além do seu aspecto de entretenimento. Hoje, as HQs são amplamente adotadas para narrar fatos históricos, como ferramenta de instrução e como forma de incentivar hábitos de leitura.

Atualmente, há uma gama muito ampla de publicações em quadrinhos que vão desde revistas infantis até obras adultas que abordam assuntos delicados como as questões de gênero, preconceito e outros temas.

Maus trata do holocausto judeu no campo de extermínio de Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial

No entanto, existe motivo para se comemorar as HQs nacionais? O mercado de quadrinhos brasileiros, historicamente, sempre foi dominado pela produção estrangeira. Basta dar uma olhada nos títulos que estão à venda nas bancas. A maioria das revistas pode ser dividida em dois grupos: super-heróis e mangá. Há alguns gibis dos personagens Disney e pouquíssima coisa mais. A grande exceção são, obviamente, são as revistas de Mauricio de Sousa. Mas será que os quadrinhos brasileiros se resumem à Turma da Mônica?

Mônica é o título mais popular de Maurício de Sousa, o nome mais famoso dos quadrinhos nacionais.

Essa história toda começa em meados do século XIX, com o surgimento dos jornais e revistas ilustrados que, graças a uma nova técnica de impressão – a litografia – permitia a reprodução de caricaturas e charges, com fins assumidamente políticos.

A primeira publicação brasileira a trazer histórias em quadrinhos de forma mais constante foi “O Tico-Tico”, em 1905. A revista era inteiramente dedicada ao público infantil, fato novo na época, e mesclava textos, brincadeiras, ilustrações e várias HQs.

Primeiro número de “O Tico-Tico”, de 11 de outubro de 1905.

A primeira história a fazer sucesso foi Chiquinho e Jagunço que, na verdade, eram decalcados de “Buster Brown”, do americano Richard Outcault. Nas páginas de “O Tico-Tico”, estrearam vários personagens estrangeiros como Mickey, Gato Félix e Popeye, originalmente publicados em jornais americanos. Mas a revista também abriu espaço para muitos artistas nacionais como J. Carlos, Oswaldo Storni, José Loureiro, Max Yantok e Luiz Sá. Este último, responsável por um trio de enorme sucesso: Reco-reco, Bolão e Azeitona. O Tico-Tico durou até a década de 1960 e é, até hoje, uma das publicações infantis mais duradouras.

Em 1934, surgiu o Suplemento Juvenil recheado, principalmente, de material estrangeiro, mas que também abria espaço para autores nacionais. No Suplemento foram publicadas as Aventuras de Roberto Sorocaba, de Monteiro Filho; O Gavião de Riff, de Carlos Thiré; O Enigma das Pedras Vermelhas, de Fernando Dias da Silva.

: Suplemento Infantil, de 1934, que logo passaria a se chamar Suplemento Juvenil e se tornaria um grande sucesso.

A razão pela qual os quadrinhos estrangeiros predominavam era que o material para republicação chegava a um preço muito baixo no Brasil. As histórias já haviam sido publicadas e pagas em seu país de origem, portanto, qualquer renda extra já significava lucro. Era muito mais prático, rápido e barato pagar a licença de publicação e a tradução do que contratar um autor nacional para produzir algo com exclusividade.

O sucesso do Suplemento fez surgirem outras publicações como Mirim, Lobinho, Gazetinha, Globo Juvenil e Gibi, título que acabou se transformando em sinônimo de revista em quadrinhos.

O Gibi, termo que originalmente significa menino negro, acabou se tornando sinônimo de revista em quadrinhos no Brasil.

Os anos 1950 foram particularmente interessantes para os quadrinistas brasileiros com a explosão dos quadrinhos de terror. Esse gênero tinha um grande público, habituado a consumir histórias feitas nos Estados Unidos e traduzidas no Brasil. Com a campanha de perseguição aos quadrinhos naquele país, vários títulos foram cancelados. Os editores brasileiros, então, precisaram substituir o material importado por produções locais. Com isso, dezenas de revistas foram lançadas e diversos autores brasileiros puderam, enfim, conquistar seu espaço. Nomes como Julio Shimamoto, Jayme Cortez, Flavio Colin, entre outros, se consolidaram nessa fase.

Revistas de quadrinhos de terror fizeram muito sucesso nos anos 1950.

Nos anos 1960, com o golpe militar e a implantação da censura sobre os veículos de comunicação, o humor gráfico ganhou relevância como ferramenta de resistência e de crítica ao regime ditatorial. A imprensa alternativa ou “nanica” se multiplicava, em títulos como Pasquim e Versus, trazendo chargistas como Ziraldo, Jaguar e, principalmente, Henfil, um dos mais destacados quadrinistas de sua geração com séries como Fradim e Zeferino.

Henfil teve revista própria para seus personagens.

Na década seguinte, houve um breve ressurgimento da onda de terror gerado pela revista Spektro que acabou se estendendo, anos mais tarde para a editora Grafipar, abrindo mais uma vez o mercado para roteiristas e desenhistas nacionais.

Nos anos 1980, surgem várias publicações no estilo underground, com destaque para a editora Circo, de Toninho Mendes, que lançou revistas como Chiclete com Banana, de Angeli; Geraldão, de Glauco; Piratas do Tietê, de Laerte; e Circo, capitaneada por Luiz Gê. Essa geração de cartunistas tinha como tema principal a crítica social e, com o afrouxamento da censura, podia exercitar uma ousadia inédita até então.

Chiclete com Banana, um dos títulos da editora Circo, abrigava os personagens de Angeli e outros autores.

A partir dos anos 1990, surgem quadrinhos com temática mais adulta e roteiros mais profundos. O nome de destaque dessa época é Lourenço Mutarelli, autor de uma obra contundente e muito original.

Nos anos 2000, começam a despontar as produções autorais. Desde que começaram a ser publicadas em grande escala para distribuição em massa, os quadrinhos se caracterizaram por ser uma propriedade de um syndicate (agência distribuidora) ou editora. Dessa forma, personagens como Mickey Mouse, Popeye, Flash Gordon, Super-Homem, Batman, Homem-Aranha etc. eram e são produzidos por autores contratados que não possuem o controle sobre esses personagens e, normalmente, seguem uma linha editorial definida pela empresa detentora dos direitos. Quadrinhos autorais são o oposto: seu autor é quem determina como conduzir sua história e é ele quem estabelece os limites.

Esse movimento, desvinculado das grandes editoras, foi iniciado nos anos 1960, nos Estados Unidos pelo movimento de quadrinhos alternativos ou underground, também denominados Comix.

Liderada pelo cartunista Robert Crumb, a Zap Comix foi a mais influente publicação de quadrinhos underground.

Nos anos 2000, esse ambiente de maior liberdade criativa, propiciou o surgimento de revistas independentes e graphic novels. Os gêmeos Fabio Moon e Gabriel Bá conquistaram vários prêmios nacionais e internacionais, entre os quais o Eisner Award por Daytripper e Dois irmãos, versão em quadrinhos do consagrado romance de Milton Hatoum.

A adaptação de O Alienista, de Machado de Assis, quadrinizada por Fabio Moon e Gabriel Bá, ganhou o Jabuti, mais importante prêmio literário do Brasil.

Atualmente, grande parte do que melhor se produz em quadrinhos nacionais não está nas bancas, mas nas livrarias. Yeshuah, de Laudo Ferreira; os trabalhos de André Diniz, Marcelo Quintanilha e Marcelo D’Salete são alguns exemplos de uso da linguagem dos quadrinhos como uma expressiva forma narrativa.

 

30 de janeiro

Mas afinal, por que 30 de janeiro é o Dia do Quadrinho Nacional? Foi nesse dia, no ano de 1869, que estreou a série Nhô Quim, do ilustrador Angelo Agostini, considerada por alguns pesquisadores a primeira história em quadrinhos do Brasil. Essa data é controversa porque o chargista francês Sébastien Sisson já havia feito uma história narrada em sequência, em 1855. O próprio Agostini também tinha desenhado uma página em quadrinhos chamada As Cobranças, em 1867. Independentemente de ter sido ou não o pioneiro dos quadrinhos no Brasil, Agostini foi um artista muito prolífico e teve papel determinante também como editor na consolidação da imprensa ilustrada que, no Brasil, ganhou forte impulso na segunda metade do século XIX, e foi um ferrenho abolicionista e antimonarquista. Sua carreira, que inclui passagens por publicações de São Paulo e do Rio de Janeiro, foi das mais intensas. Uma curiosidade: Agostini criou a primeira versão do cabeçalho da revista O Tico-Tico.

 

Nome de troféu

Em reconhecimento ao caráter pioneiro de Angelo Agostini, em 1984, a AQC – Associação de Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo instituiu o Troféu Angelo Agostini que premia o melhor da produção nacional do ano anterior, em várias categorias entre as quais Melhor Desenhista e Melhor Roteirista. Confira a lista dos premiados.

A cerimônia de premiação costuma ocorrer em uma data próxima de 30 de janeiro, preferencialmente, num sábado. Além da entrega dos troféus, há outras atividades como exposição de quadrinhos, lançamento e venda de material e palestras com artistas e outras pessoas envolvidas no meio como editores e pesquisadores.

Em 2017, a festa, em sua 33ª edição, aconteceu no dia 28 de janeiro, no Memorial da América Latina. Na ocasião foi lançado um álbum especial: uma coletânea dos trabalhos de Angelo Agostini, da Editora Criativo.

Livro reúne trabalhos de Agostini publicados, originalmente, na segunda metade do século XIX.
Publicitário e professor universitário. Docente da Faculdade de Comunicação e Design Oswaldo Cruz; da Universidade São Judas e da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP. Pesquisador de histórias em quadrinhos. Membro do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP e da comissão organizadora do Troféu HQMIX. Autor dos livros “Linguagem Mangá. Conceitos Básicos” (2015) e “Linguagem HQ. Conceitos Básicos”, (2011), e outros títulos sobre quadrinhos e comunicação. Coorganizador das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo; e das Jornadas Temáticas de Histórias em Quadrinhos, na Unifesp, campus Guarulhos.

Ver +

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *