2020, um ano histórico

O ano da Covid-19 vem chegando ao fim, e devemos pensar nos aprendizados que 2020 nos deixa para agir com consciência.

Lucas Schrouth

Primeiro, é evidente que em virtude do que vivemos é nossa obrigação a prestação de toda nossa solidariedade às vítimas e famílias que enfrentaram esta triste realidade. 2020 representou e consagrou um início de década ímpar – que instaura um antes e depois – enquanto nos despedíamos de 2019 criávamos e desejávamos um próximo ano que sem sombra de dúvidas, não era este que nos foi imputado.

2020 por algumas vezes nos fez esquecer de certas coisas por determinados momentos em que sobrevivíamos focando em outras, mas estes 12 meses nos propiciaram um misto de situações e experiências.

A geração entre o final da década de 90 e pós anos 2000 não vivenciou fatos universalmente históricos que lhe impactassem de maneira tão direta quanto o que estamos vivendo agora. Muitos diziam “quero viver um momento histórico”: pois bem estamos vivendo; o que tirar disso?

Diferentemente do que muitos concluíram de antemão, o isolamento social só escancarou outro vírus, outro mal do século presente – o isolamento emocional narcísico. Ter de conviver 24h com família, pais, irmãos, amigos, ou distantes destes, mostrou o quão vulnerável são as relações interpessoais quando colocadas em situações de choque extremo.

Nas ruas, o medo tomou seu lugar: o medo da morte, da perda, da fome e por vezes de si. Algumas pesquisas feitas durante este período são preocupantes, e trazem perspectivas futuras angustiantes: como diversas áreas não conseguiram adaptar-se frente ao isolamento social, como o índice de suicídios, de compra de remédios psiquiátricos, de diagnósticos de transtorno cresceram, em paralelo com a diminuição da procura por terapia, o triste e revoltante crescimento de crimes cometidos dentro das residências.

Estar frente ao perigo leva qualquer pessoa à reflexão, e este ano nos ensinou (ou deveria) a arte de lidar conosco mesmo. Diversas pessoas de bom coração se propuseram a produzir conteúdos e estabelecer iniciativas de aprendizagem de forma digital, vida saudável, meios de lidar com a pressão, passatempos com a família, cozinha e entre muitos outros temas para este público os ditos “quarenteners”.

Quem nunca fez promessa de fim de ano? Quem nunca estabeleceu metas para melhorar? Acontece que muitos querem esquecer este 2020 – pulemos de 2019 para um 2021 incerto – mas isto está errado. Lembremos de 2020 e com ele seus aprendizados. Tudo que nos ocorre é sempre para melhorar? É sempre aprendizado, é sempre um infligir experiência – como trabalhar esta experiência é a questão.

Pensemos, em alguns pontos, sobre o que levar de 2020:

1º – valorização, do abraço, do sorriso e do toque sincero.

Nunca antes uma roda de conversa num bar ao som de um pagode, nunca uma conversa boa fez tanta falta – que esta situação nos ensine a valorizar o que antes nos parecia trivial.

2º – reinvenção, de si e do outro.

Todas as áreas de prestação de serviço tiveram de se reinventar em fornecer o melhor produto com segurança, mas cada um entre suas próprias paredes também se reinventou. Como me manter em contato com as pessoas que tanto amo? Liga, manda mensagem, faz live, faz vídeo chamada; como não cair na mesmice? Procura aprender algo, faz exercícios em casa, faz um prato novo, desenha, faz origami – INOVE.

3º – reflexão, além do quem sou eu.

Este ano, felizmente para boa parte das pessoas, fez com que muitos deixassem o narcisismo do olhar no espelho sempre, para olhar e ajudar o que está ao lado. Muitos atualizaram as leituras e outros simplesmente ao ouvir uma matéria chocante, parou e pensou “o que esta(s) pessoa(s) está sentindo nesta situação?”. Não nos esqueçamos deste sentimento, amemos sem hipocrisia e sempre dispostos a fazer o bem.

4º – humanização, sou e estou além de mim.

Um mal, quando inflige toda humanidade, provoca um sentimento de copa do mundo numa nação. Neste caso mundial, SOMOS UM SÓ. Infelizmente, essa sensação logo passa e as necessidades grupais e individuais voltam a se sobressair. Não permitamos que isto aconteça, que inflame em nossos corações os versos de John Donny “faço parte do gênero humano”.

5º – superação, o que levar?

Daqui 10 anos ainda estaremos refletindo sobre este período, que com esta situação nós venhamos a aprender e, ao superarmos, para ela não retornemos. Superar para que? Não é esquecer, mas é vivenciar e passar pela situação de forma crítica e reflexiva – 2020 nos marcou, mas não o tornemos eterno.

Não sobrecarreguemos 2021 com mil e umas expectativas de um ano renovador, depende de nós. Hoje, dezembro de 2020, ainda passamos pela pandemia do Covid-19 e devemos agir com consciência.

O próximo ano nos guarda melhores experiências com maior aprendizado, que coloquemos em prática os diversos conteúdos e técnicas que desenvolvemos, e que não nos esqueçamos de nos estender aos outros o que por vezes necessitamos – 2020 um ano de crescimento – que ao tirarmos as máscaras, fique evidente os sorrisos.

Deixo aqui meu pensamento para encerrar esse texto:

Amar é entender que outro não está em função de mim, não me deve nada e não precisa de mim. Mas eu estou em função do outro, devo tudo à ele e dele necessito tudo.

L.Schrouth
Obra do Artista Kobra, retratando crianças de diversas etnias e religiões usando máscara
Obra do Artista Kobra, retratando crianças de diversas etnias e religiões usando máscara / reprodução

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