11 expressões racistas que você deveria parar de usar no dia a dia

O racismo está presente na etimologia das palavras. Vamos refletir sobre o significado de algumas delas

Por Julia Cavalcante

Provavelmente você já ouviu a palavra etimologia em algum lugar e, se ainda não sabe o significado, vou lhe explicar rapidamente: é o estudo da origem e evolução das palavras. Ao longo dos anos, considerando que vivemos em uma sociedade extremamente racista, expressões com significados negativos para se referir a pessoas pretas nasceram, passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano e, com o decorrer do tempo, se naturalizaram de tal forma que hoje fazem com que o racismo presente, desde suas origens passe despercebido muitas vezes. 

Alguns desses termos são empregados em tom de “brincadeira”, “apelido” ou até mesmo de “elogio”. Outros foram tão disseminados que só percebemos a conotação racista quando refletimos e descobrimos a origem. Isso indica o quanto o racismo está incorporado à visão de mundo das pessoas, resultado dos mais de 300 anos de escravidão e de uma abolição inconclusa.

A violência se perpetua quando reproduzimos e repetimos frases ou palavras racistas, por isso é necessário desconstruir esse discurso até em expressões “simples” e que aparentemente não soam ofensivas, mas que no fundo são. É urgente mudarmos essa percepção. Convido você a refletir sobre o uso dos termos que listamos abaixo. Você já usou ou alguém já usou para se referir a você ou a algum conhecido?

1. CRIADO MUDO 

Apesar de muitas pessoas não saberem, o nome do móvel remete ao período da escravidão no Brasil, quando alguns homens e mulheres passavam dia e noite imóveis ao lado da cama para atender aos “senhores’’.

Substitua por: Mesinha lateral ou mesinha de cabeceira.

2. DOMÉSTICA 

Pessoas pretas eram tratadas como animais que precisavam de “corretivos”, serem “domesticadas”. O termo surgiu no século XVI, onde as escravas eram “domesticadas” através de tortura.

Substitua por: Diarista ou secretária do lar.

3. LÁPIS COR DA PELE

Desde criança, é imposto que há só um tipo de cor de pele “bonito” e aceitável quando somos levados/as  a pintar desenhos com o lápis “cor de pele” – geralmente, um bege clarinho, usado para representar peles brancas. É evidente que o tom não representa a pele de todas as pessoas, principalmente em um país como o Brasil onde, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2014, realizada pelo IBGE, 53% da população se autodeclara parda ou preta.

Substitua por: Explicar para as crianças que existem vários tons de pele e todos são lindos, portanto um único tom não pode representar a diversidade.

4. NÃO SOU TUAS NEGAS

A mulher negra sendo lida como “qualquer uma” ou “de todo mundo” indica a forma como a sociedade a enxerga: alguém com quem se pode fazer tudo, tratar como objeto. Escravas pretas eram vistas como propriedade dos homens brancos e utilizadas para satisfazer desejos sexuais em um tempo no qual assédios e estupros eram ainda mais recorrentes. Portanto, além de totalmente racista, o termo é carregado de machismo.

Substitua por: NÃO USAR!

5. COR DO PECADO

Utilizada como “elogio”, se associa ao imaginário da mulher negra hipersexualizada. A ideia de pecado é ainda mais negativa em uma sociedade pautada na religião cristã, como a brasileira, e que ainda reforça a ideia de que nascer preto é um pecado. NUNCA será pecado ser preto, somos maravilhosos, reis e rainhas -, preto deveria ser sinônimo de perfeição. Pratique e comece hoje a enaltecer pessoas pretas ao seu redor. Se há algum pecado nessa história, é o racismo.

Substitua por: Jamais utilizar! 

6. INVEJA BRANCA

A expressão é associada a uma inveja “boa”, que não deseja o mal, reforçando a ideia de que a cor branca é positiva e a preta como negativa.

Substitua por: NÃO USAR! Na moral, inveja boa?!

7. MULATA

O substantivo vem de MULA, um animal derivado do cruzamento entre um burro e uma égua. As filhas de homens brancos com mulheres pretas foram chamadas assim. Ao redor desse termo, também ronda todo um imaginário de hipersexualização das mulheres pretas – sendo o auge disso a expressão “mulata exportação”, utilizada para objetificá-las completamente aludindo ao tráfico humano.

Substitua por: Preta/Preto.

8. MORENA

Assim como o termo “mulata”, este é utilizado por pessoas racistas para eufemizar os termos “preta” e “negra” – como se ser preto fosse algo ruim. Chamam mulheres pretas de “morena” numa tentativa de embranquecê-las e também rondam esse termo imagens de hipersexualização.

Substitua por: Preta/Preto ou negra/negro.

9. AMANHÃ É DIA DE BRANCO

O significado “dia de trabalhar” surge como a maioria dos resultados quando buscamos o termo no Google, negando que a expressão seja racista. Mas como não seria racista se  pessoas pretas são sempre vistas como preguiçosas e “vagabundas” em nossa história? E o bom trabalhador sempre como um homem branco? Esse estereótipo se aplica,inclusive, quando falamos sobre cotas raciais. Pessoas que se colocam contra as cotas insinuam que não existe esforço da nossa parte ou que não somos capazes. O que não faz sentido algum. As cotas existem como mecanismos para pessoas que estão em situações de desigualdade alcancarem oportunidades que são delas por direito. Além do mais, vamos refletir: Quem sofreu exploração da força de trabalho no período da escravidão? Quem construiu e ainda constrói este país?

Substitua por: Dia de trabalhar.

10. CABELO RUIM, CABELO DE BOMBRIL, CABELO DURO E “QUANDO NÃO ESTÁ PRESO, ESTÁ ARMADO”

A negação à nossa estética é sempre “comum” quando vão se referir ao nosso cabelo Afro. São falas que se perpetuam de maneira naturalizada e contribuem para a negação de si e destroem a autoestima. Lembro que na escola, quando criança, tinha até músicas que se referiam ao “cabelo de bombril”, além de piadas e comentários alheios que seguem para os demais âmbitos da vida:  nas universidades, ambientes de trabalho, na família, programas de televisão e até mesmo numa embalagem de uma esponja da marca Bombril chamada “Krespinha” que trazia a imagem de uma criança preta e fazia alusão a seu cabelo crespo. Falar mal das características dos cabelos Afro também é racismo. Crianças pretas sentem o racismo, só não ainda entendem o porque dele – se é que existe um porquê… E vai ter cabelo armado sim, contra o seu preconceito!

Substitua por: O que você pensa sobre o cabelo de outra pessoas não é importante a ponto de precisar dizer a sua opinião – principalmente se for negativa. E se for pra elogiar, faça isso de longe – não toca no black!

11. SAMBA DE CRIOLO DOIDO

Essa expressão se popularizou por conta do título de um samba que zombava sobre o ensino da História do Brasil nas escolas do país nos tempos da ditadura militar. No entanto, a expressão debochada, que significa confusão ou trapalhada, reafirma um estereótipo e discrimina o povo preto.

Substitua por: Não dizer!

Mas ainda não entendi: Por que devo parar de usar essas expressões?

Muitas pessoas quando não querem aceitar que foram racistas ao utilizar um termo carregado de discriminação racial automaticamente começam a colocar a culpa nas pessoas que dizem que o termo é racista. Foi o caso do Youtuber  Dyego Valença, do canal “You timão”, que disse a seguinte frase em um vídeo onde teoricamente fez um pedido de desculpas:

Eu usei uma expressão do meu cotidiano e agora existe um movimento pelo qual as pessoas estão se DOENDO por esse tipo de coisa

Muitas pessoas pensam e agem assim – estão acomodadas nessa estrutura preconceituosa e não aceitam ser apontadas como erradas. Vivemos em uma sociedade em que o racismo é estrutural, no pais que foi o último do Ocidente a abolir a escravidão que durou por mais de 300 anos (300 anos!). Naturalizar termos racistas é colaborar com a manutenção dessa opressão que tanto nos fere ainda hoje.  O racismo, estrutural impede que as pessoas enxerguem suas atitudes como racistas e se responsabilizem pelas consequências delas.

Dizer que isso é vitimismo só encobre mais o racismo.

Citei 11 termos para deixar de usar, mas segundo o Professor de Biologia Luiz Henrique, que fez um levantamento no Rio de Janeiro com seus alunos em 2009 no projeto  “Qual é a graça”, há mais de 360 termos racistas que são normalizados no dia a dia.

Compartilhe e pesquise o significado desses termos com as pessoas ao seu redor! Isso já contribui por uma sociedade menos racista e preconceituosa.

Julia Cavalcante é virajovem de São Paulo. Participa do projeto Geração que Move e participou da construção da edição nº 117 da Revista Viração – Manifesto Antirracista.

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3 Comentários

  • Procurei muito sobre uma expressão que me incomoda quando escuto e não achei a origem.
    A expressão ‘ dormir com a Rita’ quando a pessoa vai se deitar sem tomar banho.

  • Achei o artigo muito interessante. Essa parte sobre a Mulata que me chamou muito a atenção. Nunca iria imaginar a origem desse termo. Eu mesma nunca soube usar nem identificar uma pessoa que seria “mulata”. Mas a parte de chamar de MORENA que me intrigou. Já que usar essa expressão é racismo, devo usar qual pra identificar a cor de alguém que fica entre o branco e o preto (o que se aplica no meu próprio tom de pele)?

    • Oi Ayrah! Sempre que você ficar com essa dúvida e for possível, pergunte para a pessoa em questão como ela se identifica – a resposta dela dirá como você deve se referir a ela!

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