“A gente precisa se refinar para ser digno da mulher”, diz cantor Tom Zé

Na tarde dessa última terça-feira, 28 de agosto, o cantor e compositor Tom Zé recebeu uma equipe da Agência Jovem de Notícias antes de passar o som para a abertura oficial do IX Congresso Brasileiro de Prevenção das DSTs e Aids, que acontece até essa sexta (31) em São Paulo, no Parque Anhembi.

Em uma conversa descontraída, Tom Zé, aos seus 75 anos, falou da importância dos jovens usarem camisinha, relembrou a sua juventude, quando ainda era comum ter gonorréia, os tratamentos dolorosos às DSTs naquela época e a importância de se conversar sobre sexualidade. O artista ainda destacou a importância dos homens serem mais carinhosos e atenciosos com as mulheres. Ele chamou a atenção dos homens que não se preocupam com o prazer feminino e mandou ver: “é preciso a gente se refinar um pouco pra ser digno da mulher, porque a coisa mais trágica do mundo é a mulher com o pé atrás.” Acompanhe o vídeo dessa conversa e cenas do show que empolgou os participantes no Auditório Celso Furtado e no final a transcrição da entrevista na íntegra

 

Tom, como é que é pra você, depois de tantos anos de carreira, estar participando de um evento de saúde?

Bom, na verdade eu participo de um evento de saúde todo dia que eu acordo lá em casa. Porque eu acordo três horas da manhã, tomo um desjejum que é do tempo que eu estive mal de saúde e aí eu aprendi uma porção de coisas com a macrobiótica e levo uma vida que é só ter cuidado para ir para o palco. Eu tenho 75 anos e se não fosse esse cuidado eu não agüentava mais o palco. E outra coisa, às vezes as pessoas me perguntam: porque é que você tem tanta capacidade de pular no palco, fazer “cabreoli” (sic) e tal e eu digo que eu já tive uma porção de doenças e aí eu tive que ter cuidado e acabei ficando relativamente forte aos 75 anos.

 

O que você diria para o pessoal que vai vir hoje à noite?

Bom eu vou conversar com eles. A presença das pessoas acaba dando forças para a gente conversar alguns assuntos. Desde falar como eram tratadas as doenças sexuais quando eu era jovem, porque você lembra que eu era jovem antes de penicilina! Em 1945 a penicilina estava sendo inaugurada. Ela só chegou no interior do Brasil talvez em 50, cinqüenta e tanto, quando eu já tinha quase 18 anos. E então, por exemplo, o tratamento da gonorréia que era a doença que todo rapaz tinha para “batizar”, o “batizado” do rapaz era uma gonorréia, duas três. Era tratado com aquela sonda que emitiam no canal do pinto pra limpar, era uma coisa que doía terrivelmente. Aí logo apareceu a penicilina e a penicilina não resolvia tudo e aí criou outro problema que cada gonorréia que você tinha deixava um calo na próstata, um calo de acúmulo de pus e aí de vez em quando o médico tinha que espremer todos esses calos da próstata. A vida pré-civilizada não era mole!

 

Hoje se fala muito mais das Doenças Sexualmente Transmissíveis, das próprias hepatites, mas a gente queria saber, pensando no adolescente e no jovem, se você acha que a linguagem usada para falar esses assuntos é adequada e se você fazer uma campanha, uma ação ou um intervenção para conversar com os adolescentes e jovens sobre DSTs, HIV e AIDS, o que você faria?

Olha aí eu ia precisar montar uma agência de publicidade, consultar técnicos, porque eu nunca nem pensei nisso. Eu vejo as campanhas, faço um cálculo, vejo dizer que alguns jovens… por exemplo, esses dias eu vi vario filmes que passavam alguns jovens que tinham duvidas sobre AIDS e que alguns deles procuraram… Tinha um que estava bem triste porque ele tinha uma fraqueza e fez os exames e viu que não tinha nada. Aí ele saiu todo gaiteiro que já estava todo pulando. Teve um tempo que qualquer gripe que você tinha os médicos olhavam para você e diziam “viado”, como quem quer dizer “você deve estar AIDS seu filho da…”. Mas enfim, é claro que vocês e as campanhas têm o dispositivo para pegar respostas. Isso vocês mesmos têm. O papel do artista geralmente nessa coisa é dizer “tome cuidado bicho”, “tome cuidado com esse negócio de sair por aí sem camisinha fazendo isso, aquilo e aquilo outro”. E também têm o pessoal da homossexualidade, as meninas gays… as meninas como é que chamam mesmo? Lésbicas! E os rapazes gays também têm a liberdade de desenvolver a sua preferência contando que tome cuidado. Principalmente com as coisas casuais que o mundo hoje tem essa fantasia de que as coisas casuais são mais aventureiras e tal, então não é ofensa nenhuma botar uma “camisa de Vênus” quando, falando no meu caso, quando a menina está tirando a roupa!

 

Então você acha que é importante usar preservativo, né?

Ah, sem dúvida! Isso é uma das coisas que é o princípio de tudo. Esse negócio de dizer… Tem um negócio que diz assim: “ah é como comer bala com papel. Chupar bala com papel”. Não tem nada a ver! É burrice. O que prevalece no contato humano que segue até, que rompe as barreiras e vai até a sensualidade, a sexualidade é o afeto e o sentimento da humanidade se socorrendo a si mesma, não é? É uma coisa, é um momento que não tem… ninguém é melhor do que ninguém. É um momento em que o homem tem que desfazer de toda a segregação que tem contra a mulher. Porque o filho da mãe do homem tem uma segregação com a mulher que é terrível. Você sabe o caso da professora… Abdo… agora eu tenho que lembrar o nome dela. É uma professora de sexologia da USP. Ela fez uma pesquisa em 11 Universidades pesquisando às meninas “o que é que acontece quando você trepa”, vamos falar assim, né? Pode falar isso? O que que acontece quando você tem relação sexual? Você goza? As meninas disseram “não”. 67% das meninas da USP diziam que não gozavam. Oras, se as meninas da USP não gozam, onde é que vai ter moça que goza? É lá em Irará? Coitadas das minhas companheiras tabaroas, caipiras. Então perguntavam à professora Carmita Abdo quando ela perguntava “porque você não goza?” e elas diziam “ah o cara chega, me pega, bota em cima de mim e começa o fuco, fuco, fuco, levanta e vai embora”! P* que pariu! Veja que animal o masculino é, que vai namorar com a moça e nem está deixando ela se aquecer, não é companheiro dela, que porra de homem é esse? Então é preciso a gente se refinar um pouco pra ser digno da mulher, porque a coisa mais trágica do mundo é a mulher com o pé atrás. Isso é o castigo maior que o ser humano pode ter, é a solidão do ser humano na face da terra.

Tom Zé, você tem filhos?

Eu tenho um filho de um casamento do tempo que eu era estudante e que agora já tem 40 anos, é médico, opera cabeça e pescoço.

 

E você teve a oportunidade de conversar sobre sexualidade com ele?

Ahhh foi ao contrário. É o caso de dizer que ele pode até conversar comigo porque ele… eu não acompanhei muito ele durante a infância, eu tive esse descuido. Não foi por culpa minha não, mas é um assunto muito complicado. Mas depois, quando a mãe dele pensava que ele ia ser meu inimigo, ele tomou a decisão de ir lá pra casa, uma vez que ele teve que vir a São Paulo, que ele tava com um problema de moleque, espinha no rosto, e aí ficou meu amigo e é uma benção aquele filho meu. Hoje eu tenho dois netos .

E você conversaria sobre sexualidade com os seus netos?

Claro! Eu só não converso muito com meus netos porque o meu filho pode conversar melhor do que eu, mas com ele eu conversei muito depois de adulto, falando das coisas que a gente pensa, que a gente sabe.

Evelyn Araripe é jornalista e educadora ambiental. Foi educomunicadora na Viração Educomunicação entre 2011 e 2014. Atualmente vive na Alemanha, onde é bolsista do programa German Chancellor Fellowship for tomorrow’s leaders e administra o blog Ela é Quente, que conta as histórias de vida de mulheres que estão ajudando a combater os efeitos das Mudanças Climáticas ao redor do mundo.

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