[RELATO] Das coisas que aprendi trabalhando e estudando ao mesmo tempo

Só depois de algum tempo conseguimos olhar e refletir sobre momentos da nossa juventude, período em que parece que tudo acontece. Além dos estudos e da diversão que queremos antes que chegue a fase adulta, surgem algumas demandas: complementar a renda familiar e/ou ter sua própria renda, e a maneira que resolvemos é ingressando no mercado de trabalho antes dos 18 anos.

Fruto de necessidades. O ingresso no mercado de trabalho me acrescentou financeiramente e hoje entendo que socialmente também. Eu me colocava diante do transporte público de segunda a sexta, às 7 horas da manhã, o metrô era lotado (e ainda é), mas realmente apertava quando chegava o final do mês lá em casa. Foi então que percebi que a maioridade dos 18, havia chegado aos 16.

Nessa idade comecei a trabalhar e era uma mistura de vontade e necessidade. No começo era bem proveitoso, mas depois fui percebendo o cansaço físico e o desgaste mental dessa rotina.

Mas antes isso, além da vontade e necessidade, veio o medo que precisava ser entendido. Esse tal medo não se refere a falta de experiência ou habilidades que as vagas pediam, mas um receio de ocupar espaços sendo jovem, mulher e negra.

Mesmo após a abolição, o que restava para as mulheres escravizadas eram postos de trabalhos servis, a única coisa que se ausentou eram as violências físicas (em alguns casos), mas os baixos salários e cargas horárias altíssimas de trabalho permaneciam. Algo como, “você é livre, mas os espaços para sua liberdade já estão impostos.”

Dona Roseli, minha falecida avó, trabalhou a vida inteira como empregada doméstica. Dos meus 7 aos 10 anos de idade, diariamente pela manhã, ela me levava para a casa dos patrões e na hora do almoço me conduzia para a escola. No caminho ela sempre ressaltava sua gratidão pelo emprego, mas deixava bem claro que eu precisa estudar e me esforçar para não estar no mesmo posto de trabalho que ela.

Quando fiz 16 anos comecei a entender o que minha vó dizia e a tomar conhecimento dos preconceitos que são impostos a mim como mulher negra, mas sabia que isso não poderia ser uma barreira diante dos pontos que quero alcançar. Quero deixar claro também os privilégios que tenho por ser filha de professora, uma mulher negra que sempre trabalhou e estudou e ainda cuidava da casa.

 

Minha experiência

De currículo em currículo entregue, fui chamada para trabalhar como menor aprendiz, o que requer além das tarefas da empresa, estudo técnico financiado pela instituição. Estava feliz, pois eu tinha encontrado o meu lugar. Nada como o primeiro salário.

Quando terminei o ensino médio, com 17 anos, não queria ficar parada e os estudos precisavam continuar. Eu tinha sede disso, mas aí a coisa ficou doida. Eu conciliava o meu emprego com a faculdade privada. O transporte ainda era apertado, porém o ônibus e o metrô serviam como sala de aula para completar as tarefas acadêmicas.

Já no segundo semestre de faculdade consegui o tão sonhado estágio, a minha entrega ao emprego era maior. E então as necessidades foram aumentando, tanto dentro de casa como também a mensalidade dos meus estudos. O estudo voltou à tona. Comecei a estudar para o vestibular novamente, tinha anseio por uma universidade pública, isso enquanto estagiava e me dedicava à faculdade.

Consegui a tão desejada vaga na universidade pública. Agora eu estudo muito mais e ainda trabalho. Mas o significado que isso tem na minha vida, o olhar de mundo que adquiri, a autonomia, a valorização que aplico às coisas e o conhecimento que descobri das minha capacidades.

 

A história se repete

E essa realidade que vivi não é única ou pontual. Cerca de 43,7% dos jovens entre 15 e 16 anos no Brasil trabalham e estudam ao mesmo tempo, segundo dados do Programa Nacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). O programa Jovem Aprendiz, que permite a contratação de adolescentes a partir dos 14 anos sob regime de trabalho de 6 horas e garantia de estudos, do qual fiz parte, é um dos fatores que leva a isso. Outro fator é a renda familiar que carece e conta com a contribuição dessa juventude.

A jovem Vitória Soares, de 16 anos, compartilha de trajetória parecida com a minha  em busca de um sonho. Ela trabalha há sete meses no SESC – Serviço Social do Comércio e seu objetivo é guardar dinheiro para cursar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero.

“O meu interesse pelo mercado de trabalho surgiu com as minhas necessidades. Não que elas não existiam antes de começar a procurar um emprego, mas ela se agravavam com o passar dos dias. Logo quando completei os meus 14 anos eu tentei entrar no mercado de trabalho através do programa Aprendiz Legal. Sem sucesso. Um ano depois consegui entrar no SESC, na área administrativa”, conta Vitória.

Ela trabalha seis horas diárias, conforme a lei de aprendizagem. “De quarta à sábado a minha vivência no ambiente corporativo é das 9h às 15h15. Às terças-feiras, das 8h às 14h, é o dia em que eu realizo a minha capacitação teórica, conforme exige o programa. Essa capacitação é um curso técnico em administração que é a área em que eu atuo na empresa”, explica.

Quando Vitória descobriu que havia sido selecionada para a vaga, teve que fazer uma escolha: trabalhar ou estudar, já que sua escola não tinha vagas disponíveis no período da noite. “Como eu tinha a necessidade de trabalhar, eu assinei o contrato. Fiquei aproximadamente umas duas semanas sem frequentar o ambiente escolar, até conseguir minha transferência para outra instituição de ensino no período que eu desejava.”

Apesar de estar feliz em não compor os 13,2% da população brasileira desempregada, Vitória confessa que trabalhar na adolescência envolve alguns sacrifícios, entre eles, abrir mão do lazer e de momentos de socialização. “Às vezes tenho vontade sair com meus amigos, mas lembro que preciso estudar. Perco parte da minha vida social e diversão da adolescência para assumir outro papel, mas eu sei que a cada dia estou mais próxima do meu sonho”, ela conta.