[OPINIÃO] Contra a xenofobia: somos grandes, somos feitos de multidões

|Por: Rosa Maria Currò | Tradução: Ethel Rudnitzki | Fotomontagem: Tommaso Schirru

 

Você já parou para pensar como nossa era atual será vista pelas gerações futuras? Quando “Os primeiros 20 anos do século XXI” for um capítulo nos livros de História de nossos bisnetos, o que estará escrito lá?

Os primeiros meses de 2017 não parecem acrescentar fatos positivos neste capítulo. Ódio, racismo, divisão e desigualdade parecem ser as palavras chave que o compõem.

Esses são os tópicos de destaque no artigo “L’era della rabbia” (A era da raiva), publicado pela revista italiana “Internazionale“. O título foi inspirado no livro de mesmo nome do escritor indiano Pankaj Mishra, e aparece na capa da publicação, partindo em pequenos pedaços o retrato do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A eleição do milionário republicano, os recentes acontecimentos xenofóbicos na Europa e a eleição de Duterte nas Filipinas, estão entre os exemplos que o artigo nos leva questionar: “Quando foi que o mundo das livres trocas culturais entre nações virou o mundo dos muros, fronteiras e paroquialismos?”.

Talvez, o autor especula, as coisas sempre foram assim. Racismo e xenofobia são parte da natureza humana e foram meramente suprimidos, cobertos pelo brilho da esperança, inflado pela queda do muro de Berlim e o fim da Guerra Fria em meados do século passado.

Então, uma pergunta surge de imediato: será essa nossa marca? O verdadeiro título do nosso capítulo na História será “A era da raiva”? Será então um inevitável retorno ao fechamento de fronteiras e construção de muros que irá nos amaldiçoar?

Como jovem, um pensamento como esse é inaceitável. Compreensível, sim, pois não seria a primeira vez que um complexo sistema social implode em medo (como aconteceu no Império Romano). Ainda assim, é inadmissível.

Por isso, nossa busca por soluções nos trouxe a uma incrível jornada que tem o potencial de perturbar nossas convicções. Apenas tente se definir. Quem é você? Como você é? Com quem se parece? Você é brasileiro, italiano, inglês, paquistanes, estadunidense, mexicano? Você é cristão, muçulmano, judeu, ateu? Mamão com açúcar, né? Nem tanto…

 

Dê uma cuspida

Recentemente, um vídeo publicado pelo Momondo, uma plataforma de comparação de preços de viagens, causou um burburinho, pois demonstrou que saber quem você é não é tão simples assim. O vídeo mostrou os vencedores da “The DNA journey” (Jornada do DNA), um concurso promovido pelo Momondo.

Para o concurso, os participantes tiveram que definir a si mesmos: de onde eles eram, como eles viam a relação de suas nações com as outras, que nacionalidades eles gostavam e não gostavam, etc. Depois disso, tudo que eles tinham que fazer era cuspir em um tubo de teste, levá-lo para um laboratório e esperar os resultados – sim, é possível traçar o DNA de uma pessoa com apenas uma gota de saliva.

Pela análise dos nossos genes, é possível traçar nossas origens ancestrais em porcentagem e rotas migratórias. Então, um dos participantes, um homem inglês que odiava alemães, descobriu ter 5% de origens alemãs, e uma mulher casualmente descobriu um primo distante em um grupo de estranhos. Parece coisa de ficção científica, mas é verdade!

A Momondo acabou de reabrir o concurso na Itália, dando a 30 pessoas com mais de 18 anos, a chance de ganhar um teste de graça. Mas nem o concurso nem a maioridade legal são necessários para participar dessa jornada de descoberta. Diversas associações oferecem esse serviço, mas os preços podem ser um pouco salgados, variando entre 100 e 150 dólares.

Dentre essas iniciativas está o Genographic Project (Projeto Genográfico), fundado pela revista National Geographic. Ele não apenas informa seus dados pessoais, mas também coleta dados para traçar rotas migratórias da humanidade nos últimos 100.000 anos. Outros projetos interessantes são o Family Tree DNA, que tenta mapear as relações de sangue que nos conectam com o mundo, e o 23andMe, que usa dados para pesquisas médicas. No Brasil, os testes de DNA são realizados geralmente para a descoberta de paternidade, mas algumas organizações, como o grupo Genera, realizam o teste voltado para ancestralidade (o preço médio do serviço é de R$500,00).

Fazer o teste é muito simples – tudo que você precisa fazer é ou cuspir em um tubo de teste, ou passar um contonete dentro de sua boca – e te dá a chance de descobrir algo novo sobre si. Mandando suas amostras de DNA para qualquer uma dessas associações, você pode usar o resultado para diferentes análises. Você pode saber mais sobre seus ancestrais, encontrar parentes distantes ou ficar mais atento para predisposições genéticas a patologias.

Descobrir a si mesmo é o primeiro passo para desconstruir estereótipos. Isso pode abrir nossos olhos para o fato de que um indivíduo não representa uma nacionalidade inteira (por exemplo, não se pode afirmar que dois italianos têm mais em comum do que um italiano e um sírio). Por isso, eu decidi fazer o teste.

Eu descobri que 25% dos meus genes têm mutações ligadas à Síria e Turquia! Isso me fez sentir mais envolvida no que está acontecendo nessas regiões. Afinal, sem esses lugares e seus habitantes anciãos, eu não estaria aqui. Então, como eu posso virar minhas costas para os filhos dos meus próprios pais? Filhos esses cuja única culpa é não ter migrado da maneira que fizeram meus ancestrais?

“Eu sou grande, eu sou feito de multidões”. O poeta norte-americano Walt Whitman escreveu essas palavras em sua coletânea “Leaves of grass” (Folhas de grama), e com essa fala eu dou início e fim a este texto.

Aos jovens de todo o mundo – e também aos idosos, às crianças e aos adultos – não tenham medo de se descobrirem e aceitarem todas as partes de si. Como minha avó costumava me dizer, “o mundo é bonito, porque é variado”. Nós somos uma mistura. E não somos apenas indivíduos, somos pequenos mundos.

| Rosa Maria Currò é correspondente da Agência Jovem de Notícias na Itália (Agenzia di Stampa Giovanile), tem 18 anos e está finalizando o Ensino Médio na província autônoma de Trento, onde ela mora. Em seu tempo livre faz trabalho voluntário cuidando de crianças e cachorros, e adora escrever e cantar. Sua maior paixão é a Antropologia, por isso, sempre que pode ela estuda o tema e gosta muito de viajar.  

Agência Jovem de Notícias

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